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04/05/2013 - 20:42 VI Domingo do Tempo Pascal – Reflexão sobre o Evangelho (Jo 14,23-29)




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             Dois temas estão insinuados nesta passagem do Evangelho escolhida para este domingo: a vinda do Espírito Santo, apresentado com “Defensor” e a partida de Jesus, que Ele não quer que seja causa de tristeza ou temor para seus discípulos. O primeiro acontecimento será celebrado liturgicamente no Domingo de Pentecostes e, o segundo, na Solenidade da Ascensão que, no Brasil, é transferida para o Sétimo Domingo do Tempo Pascal, mas, no calendário romano, ocorre quarenta dias após a Páscoa, como indica a Escritura.

                     Contudo, o trecho de João, que nos é proposto, fala, ainda, de um outro mistério, o da inabitação: Jesus promete, ao que se mantém fiel a sua palavra, não apenas o amor do Pai, mas, também, a vinda de ambos e sua permanência nele. Desde logo, aparece uma condição: o amor a Ele, Jesus. Este amor, se é verdadeiro, tem como consequência necessária a fidelidade a sua palavra, isto é, a seus preceitos e a tudo o que nos ensinou e transmitiu. Não bastam, portanto, como aliás insiste Jesus em outra passagem, apenas as declarações de amor, nem mesmo os sentimentos, por mais cálidos que sejam. Trata-se do amor efetivo, que se traduz em atos concretos de obediência a sua vontade e a tudo aquilo que nos comunicou, tornando-nos seus dignos seguidores, pois o discipulado cristão implica em imitação e assimilação do e ao Cristo, que é mestre de Verdade e caminho de Vida. O Evangelista João deixa claro, em sua narrativa, a vontade de Jesus a nosso respeito: vivermos no amor mútuo, o que manifesta nosso amor por Ele. É evidente que Jesus quer ser amado em todos aqueles com os quais se idêntica – toda a humanidade, em particular os desvalidos de qualquer espécie – mas, igualmente, se compraz no amor que lhe dirigimos diretamente, por isso diz, também: “Se me amais...”. Portanto, o amor do próximo é tanto manifestação como prova de nosso amor por Ele e só é capaz de viver no amor quem a Ele estiver unido, como o ramo à videira.

                      A permanência no amor e na fidelidade merece-nos, então, uma graça insigne, a da inabitação. Que Deus queira habitar em nosso meio, a História da Salvação o comprova abundantemente. A Antiga Aliança já aponta para isso, seja com a própria revelação do nome de Deus a Moisés, onde o “Eu sou” indica, também, um estar junto de forma solidária, acompanhado com solicitude o seu povo, seja com sua presença muito próxima, ao lado do povo que peregrina no deserto, seja, enfim, com sua permanência na Tenda da Reunião ou no templo de Jerusalém dedicado por Salomão. Ademais, o refrão da Aliança – “serei o vosso Deus e sereis o meu povo”, vai na mesma linha de intimidade, comunhão e mútua pertença. Todavia, no Antigo Testamento, por mais que estas realidades tenham sido consoladoras, permaneceram no âmbito das imagens e das misteriosas antecipações. Com o Cristo, tudo isso vai ganhar um grau de realismo e concretude inimagináveis, pois ele é, muito palpavelmente, Pastor, Esposo, Mestre (e, poderíamos acrescentar, Amigo, Companheiro, Bom Samaritano etc.). Para João, a Encarnação é simplesmente um armar da tenda, por parte do Verbo, em nosso meio, ou seja, viver de forma muito íntima, entre nós, como o indica o original grego, que traduzimos, usualmente, por “habitou entre nós”.

                      Contenta-se Jesus em habitar em nosso meio, tendo assumido nossa natureza? Não, Ele quer mais, muito mais. Deseja, com seu Pai e o Espírito Santo, ocupar o mais profundo de cada um de nós. Deseja não um espaço disponível, deseja intimidade e mútua pertença, comunhão de amor, do mais terno amor. Consuma-se, assim, com a Encarnação, o que jamais se poderia esperar, mas é a consequência, levada até ao ponto mais extremo, do seu imutável desígnio de aproximação e comunhão, nutridos com relação aos que, só por amor, criou. Na graça da habitação, que podemos experimentar, já nesta vida, desde que “abramos a porta” Àquele que, humildemente, bate, compreendemos o sentido profundo de nosso destino e de nossa única vocação: filhos, no Cristo, do Pai que amou tanto o mundo que “entregou” seu Filho ao mundo para que todo aquele que Nele crê possua a vida eterna, isto é, a nossa inserção plena na comunhão de amor infinito e eterno da três Pessoas da Santíssima Trindade.