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11/05/2013 - 16:01 Solenidade da Ascensão do Senhor – Reflexão sobre o Evangelho (Lc 24,46-53)




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            Embora a Ascensão represente um certo tipo de separação, o que poderia ser causa de tristeza, São Lucas sublinha que os discípulos, após verem Jesus ser levado ao céu e os deixar, retornam cheios de alegria a Jerusalém. Há, pois, um afastamento que, longe de ser causa de dor, gera, precisamente, um júbilo transbordante. É preciso mergulhar um pouco mais fundo neste mistério, porque ele diz respeito também a nós, discípulos de Cristo, após sua Ascensão. Desde já, pode-se conjecturar que uma tal alegria não é carnal, no sentido de puramente humana, como seria, aliás, a tristeza incapaz de compreender o profundo mistério realizado. A Ressurreição já despertara nos apóstolos uma mais clara penetração nas sendas do mistério de Cristo. Agora, como insiste o texto de São Lucas, o seu caminho de paixão, morte e ressurreição, torna-se cheio de sentido para eles, como o foi para os dois de Emaús, a quem Jesus descobriu todo o significado dos textos da Escritura, que, por antecipação, anunciaram estes acontecimentos, o que Cristo, da mesma forma, diz, agora, aos seus. Portanto, uma primeira explicação para  o júbilo é esta certeza da vitória do Ressuscitado e do cumprimento do desígnio de salvação que nos atinge a todos nós. A Ascensão, neste sentido, é parte essencial deste plano, porque vai permitir a volta de Cristo, não só através da vinda do Paráclito, também insinuado nesta passagem (“aquele que meu pai prometeu”), que recordará suas palavras e permitirá uma compreensão sempre mais profunda de seu alcance, mas que tornará possível uma outra forma de sua presença, mais íntima, eficaz e consoladora.

           São Bernardo distinguiu duas formas de compreensão do mistério do Cristo e do significado de sua presença: o Cristo de antes da Ascensão e o Cristo fora de nosso mundo sensível na glória do Pai. Um é objeto do conhecimento carnal, no sentido de conhecimento sensível do Cristo e de sua presença concreta em nosso meio, com sua doce humanidade. O outro só  é atingido na força da fé e enxerga, por certo, um Cristo muito consolador, mas no envolve no conhecimento de sua personalidade menos superficial, que traz como consequência a nossa efetiva transformação interior, pois o compreendemos como Amor, Justiça, Fortaleza, Santidade,  Bondade e Compaixão e procuramos a Ele nos assimilar. Trata-se do Cristo forte, que pede e exige compromisso de seus aderentes, Daquele que não nos amou por brincadeira ou levianamente e procura os que se deixam seduzir por seu itinerário e por suas palavras de espírito e vida, numa existência renovada que reproduz os traços de seu mistério pascal, de morte que gera vida e vida em abundância.

           Contudo, este Cristo que é Amor, Justiça e Fortaleza não é um Cristo frio e distante, alguém de exigências sobre-humanas? Mas porque separar o Cristo que exige compromisso e a ele conduz do Cristo que “me amou e se entregou por mim”, de forma tão terna e pessoal? O Cristo da Ascensão absolutamente não é o Cristo distante e indiferente a nosso destino e a cada um de nós em sua intimidade e subjetividade bem concreta. Agora, ele pode vir a nós de forma mais perfeita, com sua graça, que não nos constrange com o peso de uma evidência avassaladora, mas solicita, sem imposição e com o respeito de nossa liberdade pessoal, a resposta a seu convite de amor. É ele que prometeu estar conosco até o fim dos tempos e a quem, por conseguinte, podemos descobrir, a cada instante, a nosso lado, com sua doce presença consoladora, só perceptível ao olhar da fé e do amor.

         Sim, o júbilo dos discípulos também pode ser o nosso, não apenas na Solenidade da Ascensão, mas na intimidade de todos os momentos de nossa existência, se quisermos permanecer a seu lado como Ele permanece ao nosso.