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11/07/2013 - 11:01 São Bento, um místico?




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            Ao celebrarmos a Solenidade de São Bento, Patriarca dos Monges do Ocidente e patrono da Europa, inspirador e autor da norma de vida de milhares de homens e mulheres por quase quinze séculos, caberia indagar sobre os aspectos mais profundos de sua espiritualidade, deixando de lado aqueles mais aparentes e superficiais, que poderiam levar a uma interpretação equivocada de sua verdadeira estatura espiritual. Dizer que foi um legislador ou organizador da vida monástica cenobítica já é afirmar algo a seu respeito, mas se nos detivermos aqui, corremos o risco de considerá-lo apenas como um eficiente administrador. Porém, quando o examinamos à luz das afirmações essenciais de sua Regra e dos traços mais importantes de sua feição espiritual, captados por seu biógrafo, São Gregório Magno, descobrimos no seu íntimo um autêntico místico.

               Antes de prosseguir, contudo, é necessário parar um instante diante do conceito de místico. Se quisermos encontrar em São Bento um místico na forma dos místicos clássicos ou mais recentes da escola carmelitana, certamente vamos nos decepcionar. Nem mesmo podemos compará-lo a um místico muito anterior, São Bernardo, ele mesmo precursor de uma via espiritual de intimidade com Cristo, sobretudo com sua proposta revolucionária do terceiro Advento, isto é, a vinda de Cristo num encontro muito pessoal com a alma. Mas, se a mística é, em essência, a vida de união com Deus, prescindindo das formas concretas que esta possa tomar, não há nenhuma dúvida quanto ao fato de que São Bento foi não só um místico, mas um grande místico e mestre da mística.

               Já se disse que São Gregório, na biografia de São Bento, deu, numa pequena frase, o eixo sobre o qual se desenvolveu  toda a sua ascensão espiritual, a partir de sua fuga de Roma até sua morte gloriosa, apresentada como uma passagem para a eternidade de quem havia atingido a plenitude espiritual possível neste mundo. Quando afirma que São Bento desejava, no início de seu itinerário espiritual, “agradar somente a Deus”, coloca, neste simples princípio, a base de todo o evoluir posterior, que faz dele, primeiro um eremita e, depois, um pai de monges ou abade, que termina como um mestre consumado de vida monástica, cheio de sabedoria, equilíbrio, unção e ternura, ou seja, um “pius pater”.

              Agradar somente a Deus, torna-se, na Regra, de forma muito concreta e clara, “nada, absolutamente, antepor ao amor de Cristo”. De fato, quando se lê a Regra com uma percepção espiritual mais aguçada, encontra-se, a cada passo o Cristo, a ser amado, servido, imitado e seguido. Como não poderia São Bento  deixar-se trair e revelar seu segredo mais  íntimo ao escrever sua Regra, que só fala do Cristo? Não estava ele cheio do amor de Cristo em seu coração? Não O tinha constantemente diante dos olhos, em sua obediência perfeita, em seu terno amor de Bom Pastor, em sua paixão e no seu humilde serviço a todos? Este é o verdadeiro e mais autêntico São Bento a quem todos nós queremos ter por mestre que nos guie nos caminhos da paz do Senhor.